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Superar o apego evitativo: o caminho para o apego seguro adquirido
A boa notícia vem no início e está bem documentada: os estilos de apego são estratégias aprendidas, não traços fixos. O que foi aprendido pode mudar. A notícia honesta vem logo a seguir: demora anos, não semanas, e não acontece só por compreender. Este texto descreve o que funciona mesmo.
O que significa apego seguro adquirido
A investigação chama ao caminho de saída do padrão apego seguro adquirido. Refere-se a pessoas que desenvolveram uma postura de apego segura apesar de experiências precoces difíceis. A marca não é que a infância tenha sido bonita, mas que pode ser contada de forma coerente e já não governa o presente.
Este achado remonta ao trabalho de Mary Main e do seu grupo. Na entrevista de apego adulto viu-se que o que decide o estilo de apego atual não é a dureza da história prévia mas a maneira como se fala dela. As pessoas com segurança adquirida narram experiências difíceis de forma coerente, sem as embelezar e sem ficarem inundadas por elas.
Isto importa na prática porque desloca o objetivo. Não se trata de o passado deixar de doer. Trata-se de deixar de decidir as suas reações.
Porque compreender não chega
O apego evitativo não mora no pensamento mas num sistema de avaliação que trabalha mais depressa do que qualquer ideia. Por isso saber coisas sobre o próprio padrão não muda à partida nada do comportamento no momento em si. O que muda são as experiências repetidas em que a proximidade fica sem consequências.
Quase toda a gente que percorre este caminho conhece o degrau intermédio frustrante: percebe exatamente o que está a acontecer e fecha-se na mesma. Não é um retrocesso mas a ordem normal. Primeiro vem o reconhecer a posteriori, depois o reconhecer durante, e a certa altura a escolha.
O único código que consegue reescrever de verdade é o seu. O Código do Apego Evitativo, posfácio
Os quatro passos
O caminho decorre em quatro etapas que assentam umas nas outras: notar o padrão, regular o sistema nervoso, nomear necessidades e suportar a proximidade. Quem salta a ordem costuma encalhar na etapa três, porque as necessidades não se deixam nomear enquanto se está em estado de alarme.
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Notar sem mudar
O primeiro passo não exige outro comportamento, apenas atenção. Quando é que a sua necessidade de distância se liga? O que aconteceu nas 48 horas anteriores? Quem responde a isto durante algumas semanas encontra quase sempre o mesmo padrão: o afastamento segue-se à proximidade, não ao conflito.
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Regular sem sair
A regulação evitativa funciona através da distância. É esse o ponto onde é preciso construir uma alternativa: expiração prolongada, movimento, água fria, tudo o que baixe o sistema sem que tenha de sair da sala. Em alarme só recorre àquilo que praticou antes.
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Nomear em vez de desaparecer
A frase «preciso de dois dias para mim, escrevo no domingo» é o passo isolado mais eficaz deste caminho. Custa-lhe pouco, muda quase tudo para a outra pessoa e treina exatamente a capacidade que lhe falta: pôr um estado interno cá fora antes de ele se transformar em ação.
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Suportar a proximidade, em doses
O último passo é confrontação no sentido original: ficar na proximidade enquanto o sistema dá o alarme, e verificar que não acontece nada. Não como ato heroico mas em porções pequenas e repetíveis. Ficar dez minutos a mais vale mais do que uma única conversa longa.
Quanto demora de forma realista
Conte em anos para a mudança de fundo e em meses para os primeiros passos percetíveis. Ao fim de cerca de três meses de prática constante, a maioria reconhece o seu padrão enquanto ele decorre. Ao fim de cerca de um ano muda o comportamento em fases calmas. Em estado de alarme o programa antigo aguenta mais tempo.
| Período | O que muda | O que fica na mesma |
|---|---|---|
| Semanas 1 a 8 | reconhece o padrão a posteriori | no momento tudo corre como antes |
| Meses 3 a 6 | reconhece-o durante | mesmo assim continua a agir segundo ele |
| Meses 6 a 12 | em fases calmas consegue reagir de outro modo | sob stress volta a cair |
| A partir do ano 2 | também sob carga fica uma escolha | as recaídas em crise continuam normais |
Estes números são orientação, não garantia. Servem sobretudo para evitar uma coisa: a desilusão ao fim de oito semanas em que aparentemente nada aconteceu. É precisamente aí que a maioria desiste, apesar de estar no caminho certo.
O que a terapia faz e o que não faz
Uma terapia dá aquilo que é mais difícil de criar sozinho: uma relação fiável em que a proximidade fica repetidamente sem consequências. Não substitui a prática diária entre sessões. Para temas de apego encaixam as abordagens focadas nas emoções, a terapia de esquemas e a psicoterapia psicodinâmica.
Mais importante do que o método é o encaixe. Um indício: se ao fim de cerca de cinco sessões não sentir qualquer segurança e continuar a sentir-se apenas observada, isso depende mais vezes da pessoa do que do procedimento. Mudar então não é um fracasso.
Para o tipo ansioso-evitativo o acompanhamento profissional é especialmente importante, porque por baixo costuma haver feridas reais. Quem ao praticar notar que a proximidade não só o incomoda mas o devolve a estados antigos, não deveria continuar sozinho.
O que ajuda dentro de uma relação
Um parceiro não pode fazer o trabalho, mas pode criar as condições: previsibilidade, nenhum castigo pelo afastamento, nenhuma recompensa por desaparecer. O mais útil é um ambiente em que a honestidade sobre o próprio estado não desemboque numa discussão.
Se a parte evitativa for você, há uma frase que ajuda o seu parceiro mais do que qualquer bom propósito: «Estou a fechar-me, não tem a ver contigo.» Retira-lhe a interpretação de que é demasiado, e essa costuma ser a ferida de fundo.
E se estiver do outro lado: o contributo mais eficaz é fiabilidade sem pressão. O que isso significa em concreto está em pôr limites sem se perder.
Como reconhece um progresso real
Quatro sinais verificáveis: as fases de afastamento encurtam. O regresso chega por si. O estado consegue ser nomeado em vez de ser atuado. E mantém-se durante meses. Tudo o resto, incluindo a melhor semana depois de uma crise, ainda não é progresso.
- Fases mais curtas. De uma semana passa-se a dois dias. Conta a direção, não o caso isolado.
- Regresso sem ser pedido. Ninguém tem de bater à porta.
- Nomear em vez de desaparecer. «Aquilo foi proximidade a mais para mim» é um passo maior do que soa.
- Duração em vez de pico. Meses, não dias. O que acontece depois de uma crise diz pouco, porque aí o medo da perda cala por instantes o medo da proximidade.
E o ponto mais importante para o fim: as recaídas fazem parte. O apego seguro adquirido não nasce de um momento de revelação mas da repetição ao longo do tempo. Decisivo não é se recai, mas com que rapidez volta.
Importante: este texto é divulgação, não um diagnóstico nem um substituto de terapia. Se ao praticar se abrirem experiências antigas que o ultrapassam, procure apoio profissional. Em crise: SNS 24 pelo 808 24 24 24 e Voz de Apoio 225 506 070. Emergência: 112.
Perguntas frequentes
Quanto tempo demora a mudar um apego evitativo?
O realista são anos, não semanas. A investigação descreve o apego seguro adquirido como um processo lento feito de experiências corretivas repetidas. As primeiras mudanças notam-se bastante antes: ao fim de alguns meses de prática costuma reconhecer o seu padrão enquanto está a acontecer. É esse o passo sobre o qual tudo o resto assenta.
O que significa apego seguro adquirido?
O termo descreve pessoas que desenvolveram uma postura de apego segura apesar de experiências precoces difíceis. A marca não é que a infância tenha sido bonita, mas que pode ser contada de forma coerente e já não governa o presente. É esse o caminho documentado para sair do padrão.
Dá para fazer sem terapia?
Em parte. Reconhecer padrões, regular o sistema nervoso e nomear necessidades pode praticar-se sozinho. O que é difícil sozinho é a própria experiência corretiva, porque nasce em relação. Um parceiro seguro pode assumir esse papel; uma terapia fá-lo de forma mais fiável, porque não depende de outra pessoa aguentar.
O meu parceiro pode curar-me?
Não, e a tentativa desgasta os dois. Uma pessoa com apego seguro pode possibilitar experiências corretivas, mas não pode fazer o trabalho. Quem espera ser curado faz depender a própria mudança da resistência de outro, e isso acaba por virar exaustão.
Que tipo de terapia encaixa?
Para temas de apego são naturais as abordagens baseadas no vínculo e nas emoções: a terapia focada nas emoções de Sue Johnson, as abordagens de terapia de esquemas ou a psicoterapia de orientação psicodinâmica. Mais importante do que a escola é o encaixe: se ao fim de cinco sessões não sentir qualquer segurança, é a pessoa errada, não o método errado.
Como noto que alguma coisa se mexe?
Em quatro pontos: as fases de afastamento encurtam. Volta por iniciativa própria. Consegue nomear o que se passou em vez de desaparecer. E mantém-se durante meses. O que não é progresso: uma boa semana depois de uma crise, ou grandes propósitos sem mudança de comportamento.
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Fontes e leituras recomendadas
- Main, M., Kaplan, N. & Cassidy, J. (1985): Security in Infancy, Childhood, and Adulthood: A Move to the Level of Representation. Monographs of the Society for Research in Child Development, 50(1/2), 66–104. DOI
- Mikulincer, M. & Shaver, P. R. (2016): Attachment in Adulthood: Structure, Dynamics, and Change. 2.ª ed. Nova Iorque: Guilford Press. Web
- Johnson, S. (2008): Hold Me Tight: Seven Conversations for a Lifetime of Love. Nova Iorque: Little, Brown. Web
- Roisman, G. I., Padrón, E., Sroufe, L. A. & Egeland, B. (2002): Earned-Secure Attachment Status in Retrospect and Prospect. Child Development, 73(4), 1204–1219.
- Siegel, D. J. (1999): The Developing Mind. Nova Iorque: Guilford Press.
- Porges, S. W. (2011): The Polyvagal Theory. Nova Iorque: Norton.