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Pôr limites sem se perder
Já aprendeu bastante sobre o apego evitativo. A esta altura percebe porque o seu parceiro age assim. Mas compreender não é o mesmo que consentir, e entre respeitar as feridas dele e suportar o abandono emocional há uma linha muito estreita. Este texto é sobre onde passam as suas linhas.
A armadilha da compreensão
Muitas parceiras de pessoas evitativas tornam-se psicólogas amadoras e desculpam cada comportamento magoante com a infância ou o medo do compromisso do outro. O problema: enquanto você tem compreensão pelas feridas dele, ninguém a tem pelas suas. Um motivo para compreender não é um motivo para aguentar; as duas coisas têm de andar juntas.
As frases soam sempre razoáveis. «Ele não faz por mal, só tem medo da proximidade.» «Agora não consegue de outra maneira, está ativado.» As duas podem ser verdade. E mesmo assim nada disso muda o que aquilo lhe faz.
O traiçoeiro desta armadilha é que sabe a maturidade. Você é a compreensiva, a informada, a que vê o padrão. Só que é precisamente esse saber que a leva a classificar as suas próprias necessidades como menos urgentes, porque a reação dele já a consegue explicar.
Paciência é esperar por alguém que se está a aproximar de si. Renúncia a si própria é esperar por alguém que está de costas. O Código do Apego Evitativo, capítulo 6
Por onde passam as linhas
Toda a relação precisa de um mínimo de alimento emocional. Três padrões tornam-se negociáveis com especial frequência no apego evitativo e não deveriam sê-lo: desaparecer durante dias sem aviso, a desvalorização ativa como forma de criar distância, e a recusa absoluta em sequer reconhecer o padrão.
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Sem resposta durante vários dias
Precisar de sossego é legítimo, e pode respeitá-lo. Desaparecer durante dias sem qualquer aviso é outra coisa: deixa-a num estado em que não consegue tomar decisões nem planear a sua vida. Isso já não é autonomia, é tê-la à disposição.
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Desvalorização ativa
Tudo bem que ele precise de distância. Nunca está tudo bem ridicularizá-la ou insultá-la para criar essa distância. A diferença importa: o afastamento é autoproteção, a desvalorização é um recurso à custa dela.
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Recusa de qualquer trabalho
Uma pessoa evitativa não tem de estar «curada» amanhã. Mas tem de estar disposta a reconhecer o padrão como padrão e a dar passos pequenos. «Eu sou assim, é pegar ou largar» não é medo do compromisso, é um beco sem saída anunciado.
Estes três são uma proposta, não uma norma. A sua lista pode ser outra. O que importa é apenas que exista antes de se ver na situação.
Um limite sem consequência é uma sugestão
Se uma linha vermelha for ultrapassada e não acontecer nada, não era um limite mas um pedido. Consequência aqui não significa separação imediata; pode ser também não estar disponível num fim de semana, adiar uma conversa ou suspender um plano comum. Decisivo é que se siga alguma coisa.
A parte difícil não é a formulação mas a disponibilidade. Tem de aceitar que depois de uma declaração clara ele possa afastar-se definitivamente. Um limite que não traça por medo exatamente desse desfecho não é um limite.
Assim soa uma confrontação clara e ainda assim não hostil:
Ultimato
«Se não mudares, vou-me embora. Digo-te pela última vez.» Força uma decisão em estado de alarme, e no apego evitativo essa decisão sai de forma fiável contra a proximidade.
Limite
«Percebo que precises de espaço. Mas passar dias sem reagir não é suportável para mim. Se isto ficar assim, nesta relação não consigo ser feliz.» Descreve a sua realidade sem o dirigir a ele.
A segunda frase não é mais branda. É mais precisa. Mais formulações para os momentos difíceis: 12 frases que funcionam com uma pessoa evitativa.
O único pedido que quase sempre resulta
Em vez de «porque precisas de distância?», pergunte «diz-me quando voltas». A primeira pergunta exige uma explicação a que ele não tem acesso. A segunda pede uma frase que ele consegue dar, e liga a autonomia dele à sua segurança em vez de as opor.
Afastamento com promessa de regresso é a frase-chave de toda esta dinâmica. «Preciso de dois dias para mim, escrevo no domingo» custa-lhe pouco e retira-lhe quase todo o alarme. É precisamente por isso o primeiro limite que devia pôr: é o mais fácil de cumprir.
E é ao mesmo tempo um teste. Quem durante meses não consegue dar essa única promessa, podendo dá-la, está a dizer alguma coisa com isso.
Sustentar o limite quando ele o testa
Depois de um limite novo costuma vir uma fase de teste: afastamento, censuras («estás a sufocar-me», «estás a fazer pressão») ou indiferença demonstrativa. Raramente é maldade; é o sistema a verificar se a velha ordem ainda vigora. Quem retira o limite nessa fase aboliu-o de facto.
Na prática significa: conte com uma a duas semanas de agitação. Nesse tempo é mais fácil se tiver decidido de antemão a sua consequência e não a tiver de inventar no momento. A força de vontade não está disponível em estado de alarme; a preparação está.
Um limite não fica mais forte por ser repetido. Pelo contrário: quem anuncia a mesma linha pela terceira vez já não a cumpriu duas vezes, e é exatamente isso que o sistema do outro lado aprende. Dizê-lo uma vez e depois agir é mais eficaz do que dizê-lo dez vezes e nunca agir. É por isso que a consequência tem de estar decidida de antemão e não pode ser inventada no momento.
E a frase para a censura que vai chegar de certeza: «Percebo que agora precisas de muito espaço. Para mim, querer contacto é uma forma de afeto, mas deixo-te o lugar.» E depois faz exatamente isso. Nada desmonta essa censura de forma mais fiável do que uma independência tranquila.
O teste que simplifica tudo
Escreva três coisas de que precisa numa relação para se sentir amada, concretas e não abstratas. Depois verifique duas perguntas: estão a ser cumpridas neste momento? E se não: o seu parceiro está disposto a trabalhar nisso, ou está em silêncio à espera de um milagre? A segunda pergunta é a que quase toda a gente evita.
Concreto significa: não «mais proximidade» mas «uma conversa de esclarecimento depois de uma discussão, no máximo no dia seguinte». Não «mais fiabilidade» mas «combinações que se mantêm». Só em pontos concretos se consegue verificar se alguma coisa se mexe.
Se ao fim de meses nenhum dos três estiver cumprido e também não houver movimento visível, a pergunta mudou de sítio. Aí já não se trata de limites mas do que faz com essa informação. O passo seguinte costuma ser tirá-la do estado de alarme: o guia do contacto zero, que não é uma manobra para ele voltar mas uma forma de se recuperar a si.
Importante: este texto é divulgação, não um diagnóstico nem um substituto de terapia. Pôr limites é algo diferente de se proteger numa relação com violência ou intimidação sistemática; aí valem outras regras e é importante preparar-se com acompanhamento profissional. Linha de apoio a vítimas de violência doméstica: 800 202 148. SNS 24: 808 24 24 24. Emergência: 112.
Perguntas frequentes
Pôr limites não é contraproducente no apego evitativo?
Não, mas a embalagem decide tudo. Um limite formulado com calma aumenta a previsibilidade, e a previsibilidade é justamente o que alivia um sistema evitativo. Contraproducentes são os limites que caem como ultimato no meio de uma discussão. O conteúdo não é o problema, o volume é.
E se ele responder a cada limite afastando-se?
Um afastamento curto depois de um limite é normal, o sistema precisa de tempo para processar a informação nova. Mas se cada limite for respondido permanentemente com desaparecimento e nunca houver regresso, isso já não é medo do compromisso mas uma questão de poder. Aí o limite não é o problema mas a prova de fogo.
Como distingo um limite de uma exigência?
Um limite descreve o que você faz. Uma exigência descreve o que ele deve fazer. «Tens de me escrever todos os dias» é uma exigência. «Preciso de um aviso curto se desapareceres mais de dois dias, senão não consigo aguentar» é um limite. A segunda forma dispensa qualquer pretensão de controlo e por isso resulta melhor.
Tenho de anunciar cada limite?
Os importantes sim, uma vez e com calma. Limites que ninguém conhece parecem arbitrariedade quando são ultrapassados. O que não precisa de anunciar é a consequência em detalhe; basta que você saiba o que vai fazer quando a linha cair.
O que é a armadilha da compreensão?
O estado em que desculpa cada comportamento magoante com a infância dele ou com o medo do compromisso. Compreender é valioso, mas não é motivo para aguentar. Se você tem compreensão pelas feridas dele e ninguém a tem pelas suas, isso já não é paciência: é renúncia a si própria com vocabulário psicológico.
E se os meus limites o afastarem definitivamente?
É um risco real e vale a pena olhá-lo de frente. Mas convém virá-lo do avesso: uma relação que só aguenta enquanto você não pedir nada não é uma relação estável, é uma que ainda não foi posta à prova. Um limite claro não parte o que era sólido; torna visível o que já era frágil.
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Fontes e leituras recomendadas
- Bowlby, J. (1988): A Secure Base: Parent-Child Attachment and Healthy Human Development. Nova Iorque: Basic Books.
- Mikulincer, M. & Shaver, P. R. (2016): Attachment in Adulthood: Structure, Dynamics, and Change. 2.ª ed. Nova Iorque: Guilford Press. Web
- Rosenberg, M. B. (2003): Nonviolent Communication: A Language of Life. Encinitas: PuddleDancer Press. Web
- Johnson, S. (2008): Hold Me Tight: Seven Conversations for a Lifetime of Love. Nova Iorque: Little, Brown. Web
- Tatkin, S. (2011): Wired for Love. Oakland: New Harbinger.