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A armadilha ansioso-evitativa: porque se ativam mutuamente

Por Elias FreiAtualizado em 5 de agosto de 202611 min de leitura

Há uma piada amarga no mundo do apego: precisamente os dois tipos que pior encaixam são os que mais se atraem. Este texto explica porque isso não é acaso, como funciona o círculo entre vocês, e em que único ponto se pode quebrar.

A dança: como funciona o círculo

Em resumo

Sob stress, a parte ansiosa sobe a hiperativação: procurar mais contacto, esclarecer, agarrar-se. A parte evitativa sobe no mesmo instante a desativação: afastar sentimentos, criar distância, fechar-se. Duas pessoas, o mesmo acontecimento, e reações exatamente opostas que se reforçam uma à outra.

A terapeuta de casal Sue Johnson chama a estes padrões de discussão repetidos «diálogos demoníacos». O mais frequente é a dança perseguidor-distanciador, que ela batizou poeticamente de «polca do protesto»: um torna-se exigente e insistente, o outro afasta-se e levanta um muro.

Quanto mais um persegue, mais o outro foge. Quanto mais um foge, com mais pânico o outro persegue. Um círculo em que ambos se sentem cada vez mais sozinhos, embora ambos queiram o mesmo: sentir-se ligados com segurança.

O que acontece em cada estilo de apego sob stress
O mesmo acontecimentoParte ansiosaParte evitativa
Uma noite bonitaalívio, vontade de maisvulnerabilidade, necessidade de recuar
Uma resposta curtaalarme: «alguma coisa não está bem»sem significado, muitas vezes nem é notada
Uma pergunta sobre o estado da relaçãoesperança de segurançapressão, aperto, impulso de fuga
Uma discussãoesclarecer já, não se separaremdistância para voltar a conseguir pensar
O silênciopânico, dor físicaalívio, calma

Olhe para a última linha. O mesmo acontecimento, o silêncio, é para um a ameaça e para o outro a salvação. Enquanto isso não for dito, falam duas línguas diferentes sem se encontrarem. E é exatamente isso que estão a fazer.

Porque a atração é tão forte

Em resumo

A atração tem um motivo simples: a familiaridade. Quem em criança teve de lutar por afeto tem um sistema nervoso que reconhece num parceiro distante um padrão conhecido, e o conhecido parece intenso. Essa intensidade confunde-se facilmente com atração. Ao lado, uma pessoa de apego seguro parece muitas vezes «aborrecida», porque falta o drama habitual.

A isso junta-se um segundo nível que raramente é nomeado: ambos os lados recebem a confirmação do seu modelo interno. A parte ansiosa volta a confirmar que o amor tem de ser arduamente conquistado. A parte evitativa volta a confirmar que a proximidade é exigente e absorvente. Nenhum dos dois vive algo novo, e é precisamente isso que torna a constelação tão estável.

Por isso esta combinação aguenta muitas vezes anos apesar de ambos sofrerem. Não é instável. É desgastante.

Porque se sente no corpo

Em resumo

A rejeição social é processada no cérebro em parte pelas mesmas regiões que a dor física. Se o afastamento dele lhe bate no corpo (aperto no peito, estômago às voltas, insónias), isso não é hipersensibilidade mas uma reação mensurável. O seu corpo acha mesmo que está em perigo.

Isso explica porque as boas intenções não funcionam no momento decisivo. Em estado de alarme, a parte do cérebro que pondera fica simplesmente menos acessível. Tudo o que preparar em fases calmas (uma frase, um número de telefone, um passeio) não é por isso um penso consolador. É a única forma de controlo que ainda funciona dentro do alarme.

Porque não há um vilão

Em resumo

Nesta dança ninguém é o culpado. A parte evitativa não é fria de coração, e a ansiosa não é «demasiado». São dois sistemas nervosos a correr programas antigos e opostos que se ativam mutuamente. Assim que perceber isso, deixa de lutar contra uma pessoa e começa a mudar um padrão.

Isto não é uma tentativa de suavizar nada. É uma distinção prática, porque desloca o ponto de ataque. Lutar contra uma pessoa significa querer ganhar. Mudar um padrão significa reconhecer a sua parte e trabalhá-la, e essa é a única parte a que tem acesso.

Onde o círculo pode ser interrompido

Em resumo

O círculo tem exatamente um ponto onde pode intervir: o momento entre o afastamento dele e a sua reação a ele. Nem o comportamento dele nem os seus sentimentos, que vão chegar de qualquer forma. Mas o que faz nos dez minutos seguintes. Esses dez minutos decidem se o laço se fecha ou se abre.

  1. Nomear o alarme em vez de o seguir

    «O meu sistema de apego acabou de ligar» é uma frase diferente de «ele está a afastar-se, tenho de fazer alguma coisa». A primeira cria um milímetro de distância entre o estímulo e a reação. Neste ponto não é preciso mais.

  2. A regra dos dez minutos

    Não escrever, não telefonar, não esclarecer nada durante dez minutos. Nesse tempo a ativação corporal baixa o suficiente para voltarem a ser possíveis decisões. A maior parte das mensagens que pioram uma situação nasce nos primeiros três minutos.

  3. Enviar uma vez, não três

    Se quiser dizer alguma coisa: uma frase, sem pressão, sem ponto de interrogação. Depois disso a bola já não está do seu lado. As formulações concretas estão em 12 frases que funcionam com uma pessoa evitativa.

  4. Ir buscar a corregulação a outro lado

    Uma chamada a uma amiga, movimento, contacto com pessoas que estão disponíveis. O seu sistema precisa de se acalmar; o que não precisa é que seja justamente a pessoa que agora não consegue.

  5. Pedir a promessa de regresso quando há calma

    Não em pleno alarme, mas dias depois: «Está tudo bem que precises de espaço. Só preciso de uma frase que me diga quando voltas.» Esse é o único pedido que atende ao mesmo tempo à autonomia dele e à sua segurança.

O que acontece quando sai da dança

Em resumo

Quando quem persegue deixa de perseguir, em quem se distancia baixa a pressão percebida, e às vezes surge movimento porque a proximidade deixa pela primeira vez de parecer ameaçadora. Mas não conte com isso. O ganho fiável é outro: sai do alarme permanente, e o seu sistema nervoso aprende que também funciona sem a ressonância dele.

Aqui está o autoengano mais frequente desta dinâmica. Quem para de perseguir para que ele reaja continua a perseguir, apenas mais baixinho e com mais tensão. De fora a diferença mal se vê, e por dentro é enorme: num caso está à espera, no outro está a viver.

Um teste simples: se hoje ele não escrever, nem amanhã, nem depois de amanhã, isso muda o seu dia? Se a resposta for sim, não saiu da dança, apenas fez uma pausa dentro dela.

Quando os dois querem

Em resumo

A constelação pode funcionar se ambos tratarem o círculo como um problema comum em vez de como a falha do outro. A terapia de casal focada nas emoções de Sue Johnson aponta exatamente a isso e tem bom suporte. A condição é a vontade própria dos dois lados; caso contrário a terapia torna-se o aperto seguinte de que a parte evitativa foge.

A primeira coisa trabalhada nesses processos não é o tema da discussão mas o próprio círculo: ambos aprendem a nomeá-lo enquanto está a acontecer. «Estamos outra vez na dança» é uma frase que consegue mais do que qualquer debate sobre o motivo concreto, porque põe os dois do mesmo lado.

Importante: este texto é divulgação, não um diagnóstico nem um substituto de terapia. Se a dinâmica lhe está mesmo a pesar (desânimo persistente, ansiedade, a sensação de se estar a perder), procure apoio profissional. Em crise: SNS 24 pelo 808 24 24 24 e Voz de Apoio 225 506 070. Emergência: 112.

Perguntas frequentes

Porque se atraem precisamente estes dois tipos?

Porque o familiar sabe a atração. Quem em criança teve de lutar por afeto tem um sistema nervoso que reconhece num parceiro distante um padrão conhecido, e o conhecido parece intenso. Ao contrário, um parceiro muito acessível confirma à parte evitativa a sua ideia de que a proximidade é exigente. Ambos recebem a confirmação do seu modelo interno.

Uma relação ansioso-evitativa pode funcionar?

Sim, mas só se pelo menos um interromper o automatismo. A constelação é estável, aguenta muitas vezes anos, mas sem uma mudança consciente é desgastante para ambos. Na prática a mudança começa quase sempre pela parte ansiosa, porque o seu sofrimento é mais agudo e a motivação, por isso, maior.

A culpa é minha se me agarro?

Não. A hiperativação é uma reação automática do sistema de apego a uma ameaça percebida, não um defeito de carácter. Responsabilidade e culpa são coisas diferentes: a culpa da reação não é sua, mas é a única pessoa que pode mudar alguma coisa na sua parte.

O meu parceiro vai mudar se eu parar de perseguir?

Às vezes surge movimento, porque a pressão percebida baixa e a proximidade deixa de ser ameaçadora. Mas não conte com isso. Quem para de perseguir para provocar uma reação continua a perseguir, apenas mais baixinho. O ganho real é sair do estado de alarme permanente.

A terapia de casal ajuda nesta dinâmica?

Se os dois forem por vontade própria, sim. A terapia de casal focada nas emoções de Sue Johnson foi desenhada exatamente para o círculo perseguidor-distanciador e tem bom suporte. Se a parte evitativa for só para lhe agradar, vive as sessões como mais um aperto, e então a terapia reforça o padrão.

Porque me parece aborrecida uma pessoa de apego seguro?

Porque falta o sobe e desce habitual. Um sistema nervoso que iguala intensidade a importância lê a fiabilidade, no início, como ausência de sentimento. Isso pode ser reaprendido, só demora, porque está a desfazer uma equação que vigora desde a infância.

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Fontes e leituras recomendadas
  1. Johnson, S. (2008): Hold Me Tight: Seven Conversations for a Lifetime of Love. Nova Iorque: Little, Brown. Web
  2. Mikulincer, M. & Shaver, P. R. (2016): Attachment in Adulthood: Structure, Dynamics, and Change. 2.ª ed. Nova Iorque: Guilford Press. Web
  3. Hazan, C. & Shaver, P. (1987): Romantic Love Conceptualized as an Attachment Process. Journal of Personality and Social Psychology, 52(3), 511–524. DOI
  4. Bartholomew, K. & Horowitz, L. M. (1991): Attachment Styles among Young Adults: A Test of a Four-Category Model. Journal of Personality and Social Psychology, 61(2), 226–244. DOI
  5. Eisenberger, N. I., Lieberman, M. D. & Williams, K. D. (2003): Does Rejection Hurt? An fMRI Study of Social Exclusion. Science, 302(5643), 290–292. DOI
  6. Levine, A. & Heller, R. (2010): Attached: The New Science of Adult Attachment. Nova Iorque: Tarcher/Penguin. Web