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Magoei alguém que amo: responsabilidade sem se odiar

Por Elias FreiAtualizado em 5 de agosto de 202610 min de leitura

A certa altura chega o momento em que vê aquilo. Não a justificação, não a explicação, mas a imagem nua: havia ali uma pessoa à sua espera, e você não estava. Este texto é sobre o que fazer com isso sem se desfazer pelo caminho.

A diferença entre culpa e vergonha

Em resumo

A culpa diz: fiz algo mau. A vergonha diz: eu sou mau. A primeira posição leva à reparação, a segunda ao recuo. No apego evitativo a culpa transforma-se em vergonha com especial rapidez, e a vergonha desencadeia exatamente o comportamento de que aqui se trata: desaparecer.

Não é uma subtileza de linguagem, mas o ponto mais útil de tudo o que se segue. Quem se despreza pelo próprio comportamento fica sem capacidade de agir. E quem não consegue agir não escreve, não pede desculpa e no fim repete precisamente o padrão que causou a ferida.

A investigação sobre vergonha e culpa mostra essa diferença com clareza: os sentimentos de culpa associam-se à reparação e à empatia; os de vergonha, à evitação, à defesa e, nalguns casos, à agressão contra a pessoa perante quem se sente vergonha.

A vergonha não é um motor de mudança. É o travão que se sente como um motor.

Aquilo por que é realmente responsável

Em resumo

Não é responsável por ter um padrão de vinculação que não escolheu. É responsável pelo que faz com ele a partir do momento em que o conhece: se o nomeia ou o cala, se escreve ou espera, se pratica ou deixa ficar.

Esta linha divisória ajuda porque impede as duas saídas falsas: a desculpa («sou assim») e a auto-acusação («sou má pessoa»). As duas posições levam ao mesmo resultado, que é nada mudar.

Em concreto, há três coisas dentro da sua responsabilidade:

  • Nomear em vez de desaparecer. A diferença entre «preciso de dois dias, escrevo no domingo» e um silêncio mudo é toda a diferença para a outra pessoa.
  • Aliviar a interpretação. Quem não explica deixa a explicação nas mãos do outro. E essa explicação diz quase sempre: eu sou demais.
  • Trabalhar naquilo que já conhece. A partir do momento em que percebeu o padrão, não fazer nada é uma decisão.

E se na altura não sentiu nada

Em resumo

Muitas pessoas evitativas não sentem nada durante a separação e só dão pela perda semanas ou meses depois. A desativação não apaga o sentimento, adia-o. Isso explica duas coisas ao mesmo tempo: que a outra pessoa tivesse razão em não ver nada, e que a sua dor posterior seja real.

É uma das partes mais difíceis de aceitar, porque parece uma contradição. Na memória dela, você estava frio. Na sua, estava vazio. As duas coisas descrevem o mesmo momento por dentro e por fora, e nenhuma delas é mentira.

Daí sai uma frase que pode dizer sem enfeitar e sem pedir nada em troca: não que não lhe importasse, mas que na altura não chegou a dar por isso. Como funciona esse desligar, e porque é que se ativa justamente quando estão mais próximos, está em porque é que a proximidade parece pressão.

Como é um pedido de desculpa que chega

Em resumo

Um pedido de desculpa eficaz tem três partes: o que fez, o que isso provocou, o que fará de outra maneira. Não contém nenhum «mas», nenhuma explicação da sua infância e nenhum pedido de consolo. Assim que explica porque é assim, desloca a conversa da dor dela para a sua.

Soa a pedido de desculpa, não é

«Lamento que te tenhas sentido assim.» · «Eu sou assim, tem a ver com a minha infância.» · «Desculpa, mas tu também fizeste pressão.» · «Odeio-me por isso.»

Chega

«Estive três semanas sem te escrever e sem te dizer porquê. Tiveste de perceber sozinha o que se passava, e imagino que tenhas pensado que era por tua causa. Lamento. De agora em diante aviso-te antes, quando precisar de distância.»

A última frase da caixa da direita é a mais difícil porque o compromete. É precisamente por isso que funciona. Um pedido de desculpa sem mudança de comportamento é um pedido de absolvição, e quase toda a gente sente a diferença de imediato.

E a quarta linha da esquerda merece explicação à parte: «odeio-me por isso» soa a arrependimento e é na verdade uma ordem. Agora a outra pessoa tem de o consolar. Com isso ficou com a conversa toda para si.

Onde a reparação vira autopunição

Em resumo

A reparação olha para fora e tem limite. A autopunição olha para dentro e não acaba nunca. Um teste simples: se o seu arrependimento serve à outra pessoa, é reparação. Se trabalha sobretudo a sua consciência, é mais um recuo, só que desta vez para dentro.

Formas típicas em que a autopunição aparece disfarçada de responsabilidade:

  • Remoer cenas antigas sem fim. Sente-se como elaboração e não muda nada.
  • Declarar-se incapaz de ter uma relação. Um veredicto cómodo, porque poupa tentativas futuras.
  • Ofertas de reparação desmedidas. Quem se oferece até ser desconfortável está a exigir o perdão em vez de o esperar.
  • Contactos que não trazem nada ao outro. Uma mensagem ao fim de dois anos que alivia sobretudo a si.

A investigação sobre autocompaixão encontra aqui um quadro consistente: as pessoas que lidam com os próprios erros com gentileza assumem mais depressa a responsabilidade e repetem menos os erros do que as que se punem com dureza. A indulgência consigo mesmo não é o contrário da responsabilidade, é a sua condição.

E se não vier resposta nenhuma

Em resumo

O silêncio depois de um pedido de desculpa não é um veredicto sobre si, é uma decisão da outra pessoa sobre aquilo de que precisa. Um pedido de desculpa que só conta se tiver resposta não era um pedido de desculpa, era um pedido. O que disse continua de pé mesmo que nunca saiba o que ela fez com isso.

Para um sistema evitativo esta espera é difícil de aguentar, porque o silêncio lê-se logo como confirmação: eu tinha razão, não valho nada. É aí que volta a vergonha do início, e com ela o impulso de escrever outra vez, de explicar melhor, de arrumar aquilo de vez.

A regra prática é curta: um pedido de desculpa, nenhuma segunda ronda. Insistir transforma o seu alívio em tarefa da outra pessoa, e é exatamente esse o deslocamento de que trata este texto.

O que pode devolver à outra pessoa

Em resumo

O mais valioso que pode devolver não é arrependimento, mas uma correção: a confirmação de que ela não fez nada de errado. Quem passou meses na incerteza por causa de alguém carrega quase sempre a explicação de ter sido demais. Essa explicação só você pode desmontar.

Basta uma frase. «Não foste demais. Eu é que não consegui.» Não lhe custa mais do que honestidade e pode poupar à outra pessoa anos de dúvida sobre si própria.

Importa o que não vem depois. Nenhuma proposta de tentar outra vez, se não tem a certeza. Nenhuma pergunta sobre se ela o consegue perdoar. Nenhuma conversa sobre as suas razões, a não ser que ela pergunte.

E depois?

Em resumo

Depois da responsabilidade vem o trabalho, e é pouco espectacular: reparar no padrão, regular o próprio sistema, nomear necessidades, aguentar proximidade em doses pequenas. Sem essa parte, o melhor pedido de desculpa fica em intenção, e as intenções raramente duram mais do que até à próxima situação apertada.

O caminho detalhado, com prazos realistas, está em superar o apego evitativo. E se quiser perceber de onde vem o padrão antes de trabalhar com ele: causas do apego evitativo.

Importante: este texto é divulgação, não um diagnóstico nem um substituto de terapia. Se os sentimentos de culpa e vergonha se tornarem tão fortes que o paralisam ou surgirem pensamentos de se magoar, procure apoio de imediato. Em crise: SNS 24 pelo 808 24 24 24 e Voz de Apoio 225 506 070. Emergência: 112.

Perguntas frequentes

A culpa não é o primeiro passo para melhorar?

A culpa sim, a vergonha não. A diferença é decisiva: a culpa diz «fiz algo mau» e leva à reparação. A vergonha diz «eu sou mau» e leva ao recuo. No apego evitativo a culpa transforma-se em vergonha com enorme rapidez, e então reforça-se exatamente o comportamento que queria mudar.

Como é que peço desculpa da forma certa?

Um pedido de desculpa eficaz tem três partes e nenhuma quarta: diga em concreto o que fez, diga o que isso provocou na outra pessoa, e diga o que fará de outra maneira daqui para a frente. O que não cabe lá dentro: uma explicação da sua infância, um pedido de consolo e tudo o que comece por «mas».

E se eu não conseguir reparar?

Continua a sobrar algo que conta: um pedido de desculpa sem contrapartida. Nem toda a ferida sara, e tentar empurrar a outra pessoa para o perdão é mais uma exigência. Pode dizer o que percebeu e depois ir embora.

Devo escrever anos depois?

Só se servir à outra pessoa e não a si. O teste honesto: continuaria a ser certo se não viesse resposta nenhuma? Se espera alívio, é autoconsolo. Se quer devolver algo que pertence à outra pessoa, ou seja a confirmação de que não fez nada de errado, então sim.

Como é que se aguenta ter magoado alguém?

Segurando as duas coisas ao mesmo tempo: que aconteceu e que não é uma má pessoa. É essa a capacidade que está de facto a treinar. Quem só consegue segurar uma delas acaba na negação ou na autodestruição, e nenhuma das duas ajuda a pessoa que magoou.

Porque é que na altura não senti nada?

Porque a desativação desliga o sinal antes de ele chegar. O sistema não apaga o sentimento, adia-o. Por isso muitas pessoas evitativas dão pela perda semanas ou meses mais tarde, quando já não há nada a fazer. Essa dor atrasada não é falsa, e também não é desculpa.

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Fontes e leituras recomendadas
  1. Tangney, J. P. & Dearing, R. L. (2002): Shame and Guilt. New York: Guilford Press.
  2. Brown, B. (2012): Daring Greatly. New York: Gotham Books.
  3. Mikulincer, M. & Shaver, P. R. (2016): Attachment in Adulthood: Structure, Dynamics, and Change. 2.ª ed. New York: Guilford Press. Web
  4. Johnson, S. (2008): Hold Me Tight: Seven Conversations for a Lifetime of Love. New York: Little, Brown. Web
  5. Neff, K. (2011): Self-Compassion: The Proven Power of Being Kind to Yourself. New York: William Morrow. Web