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Porque a proximidade parece pressão

Por Elias FreiAtualizado em 5 de agosto de 202610 min de leitura

Pergunta o que vão fazer no fim de semana. Uma pergunta inofensiva, feita com simpatia. E a resposta vem em monossílabos, irritada ou simplesmente não vem. Este texto explica porque um sistema nervoso evitativo ouve nessa pergunta algo completamente diferente do que você diz, e o que daí decorre na prática.

«Nós» soa-lhe a ameaça

Em resumo

Para uma pessoa de apego ansioso, «nós» é uma promessa de segurança. Para uma de apego evitativo, essa mesma palavra soa a absorção, ou seja à sensação de se dissolver no outro e de se perder. Ambos ouvem a mesma frase e processam-na em direções opostas.

Por trás está uma convicção bem assente: assim que me comprometo com alguém, deixo de me pertencer. Quem acredita nisso conta com consequências que você nem sequer imaginou. Parte do princípio de que numa relação firme terá de abandonar os seus interesses, consultar cada decisão e responsabilizar-se sozinho pelo bem-estar emocional dela.

Por isso a reação irritada a uma pergunta sobre o fim de semana não é sinal de falta de afeto. É a reação a uma fatura que se monta na cabeça dele e que você nunca emitiu.

O pensamento de tudo ou nada

Em resumo

Muitas pessoas de apego evitativo só conhecem dois estados: o isolamento total, que sabe a segurança, e o sacrifício total, que sabe a perigo. O terceiro caminho falta na sua experiência. Que se possa estar próximo sem renunciar a si mesmo não é para elas uma opção mas uma afirmação por provar.

Esse terceiro caminho tem nome na psicologia de casal: diferenciação. Referem-se duas pessoas inteiras que se ligam, em vez de duas metades que se fundem. Quem na infância não viveu limites saudáveis, seja por sobreproteção seja por pais que projetavam as suas próprias necessidades no filho, simplesmente nunca viu esse estado.

Na prática significa: na cabeça dele decide constantemente entre «ficar contigo» e «ficar comigo». E na dúvida escolhe-se a si próprio. Não porque você valha menos, mas porque considera essa escolha inevitável.

Ele está a lutar contra um fantasma do seu passado, não contra si. O Código do Apego Evitativo, capítulo 3

O que acontece no sistema nervoso

Em resumo

O corpo decide sobre a segurança mais depressa do que o pensamento. No apego evitativo esse sistema de avaliação está calibrado para ler a proximidade como uma exigência. As medições mostram que os adultos de apego evitativo reagem corporalmente de forma clara a temas de vínculo, enquanto por fora se mantêm serenos e dizem estar calmos.

Daí decorrem duas coisas, e ambas importam no dia a dia mais do que qualquer teoria.

Primeira: a reação chega antes do argumento. Quando o sistema dele sinaliza aperto, a conversa já está perdida, por muito razoável que fosse o seu pedido. Discutir em estado de alarme só aumenta o alarme.

Segunda: a calma não é prova de calma. A serenidade que vê é muitas vezes a superfície sobre uma reação de stress. Quem conclui daí que o tema lhe é indiferente está a ler o que não é.

Porque os seus desejos chegam como exigências

Em resumo

Você vê um convite para planear em conjunto. Ele ouve uma disposição sobre o seu tempo e uma avaliação caso recuse. Essa tradução acontece automaticamente. Quanto mais tenta integrá-lo no «nós», com mais força ele luta pelo seu «eu», e a luta dirige-se visivelmente contra si.

O que diz

«O que fazemos no próximo fim de semana?» Pensado como pergunta aberta, com «nada» entre as respostas possíveis.

O que chega

«O teu fim de semana está ocupado. Se disseres que não, és mau parceiro.» Uma fatura que ninguém emitiu.

A saída prática não passa por querer menos mas por deixar a escolha visível. «Apetecia-me fazer algo contigo no sábado. Se esta semana não der, tudo bem.» O mesmo desejo, outra embalagem, outra reação. Mais formulações deste tipo estão em 12 frases que funcionam com uma pessoa evitativa.

O paradoxo da independência

Em resumo

O medo de ser absorvido destrói exatamente aquilo que a pessoa evitativa no fundo deseja. Mantém distância para não se perder, e com isso perde a hipótese de uma ligação que a sustentaria. Fica sozinho, não por amar a solidão mas por considerar arriscada a cooperação.

Para si este é o ponto em que a compaixão e a autoproteção têm de se juntar. Consegue ver que ele está a atrapalhar-se a si mesmo. Não o consegue impedir.

O que ajuda mesmo

Em resumo

O que baixa a ameaça sentida é a previsibilidade: combinações claras em vez de intensidade espontânea, proximidade em doses digeríveis em vez de em grandes ondas, e áreas em que deliberadamente não intervém. Não menos proximidade, mas menos surpresa.

  1. Anuncie o compromisso em vez de o impor

    «A certa altura gostava de falar sobre o verão, hoje não» retira ao tema o fator emboscada. O que é anunciado dispara menos alarme do que aquilo que aparece de repente na sala.

  2. Deixe-lhe áreas sem si

    Os conselhos não pedidos, as propostas de melhoria e o pensar por ele o seu dia a dia são para um sistema evitativo a prova de que a absorção começou. Mesmo quando ditos com carinho.

  3. Dose a proximidade em vez de a empilhar

    Três noites calmas fazem outro efeito do que um fim de semana intenso. Não porque deva querer menos, mas porque o termóstato dele sobe mais devagar do que o seu.

  4. Peça o regresso, não a explicação

    «Diz-me quando voltas» é o único pedido que atende ao mesmo tempo à autonomia dele e à sua segurança. «Porque precisas de distância?» exige algo a que ele não tem acesso.

  5. Regule-se enquanto ele se afasta

    A sua calma não pode depender de quando ele volta. Tudo o resto a torna refém do ritmo dele.

E se for você a reagir assim

Em resumo

Muita gente procura esta frase porque a conhece por dentro: uma pergunta normal e de repente o impulso de sair da sala. Se for o seu caso, o que sente não é um defeito de carácter mas um sistema de avaliação calibrado há muito tempo. E há uma intervenção concreta que resulta antes de qualquer trabalho de fundo.

Consiste em separar duas coisas que na sua vivência são uma só: a pergunta e a fatura. A pergunta era «o que fazemos no sábado?». A fatura é tudo o que a sua cabeça acrescenta sobre perda de liberdade e obrigações futuras. À primeira consegue responder, à segunda não, porque ninguém a emitiu.

Na prática: ganhe dez segundos e responda apenas à pergunta literal. «No sábado ainda não sei, digo-te na quinta?» Com isso não cede liberdade nenhuma, e a outra pessoa recebe algo com que pode contar. É exatamente o mesmo mecanismo de superar o apego evitativo: não mudar o sentimento, mas abrir uma fresta entre o sentimento e a reação.

E o limite disto tudo: ter consideração por um sistema sensível é diferente de abdicar das próprias necessidades. Se notar que semana após semana se faz mais pequena para que o alarme dele não dispare, chegou o ponto em que precisa das suas linhas vermelhas. Como são: pôr limites sem se perder.

Importante: este texto é divulgação, não um diagnóstico nem um substituto de terapia. Se a sua situação lhe está mesmo a pesar (desânimo persistente, ansiedade, a sensação de se estar a perder), fale com um profissional de psicologia. Em crise: SNS 24 pelo 808 24 24 24 e Voz de Apoio 225 506 070. Emergência: 112.

Perguntas frequentes

Porque reage com irritação a uma pergunta simples?

Porque não ouve a pergunta mas uma amarra. «O que fazemos no fim de semana?» chega-lhe como: já não dispões do teu tempo. Não é uma interpretação errada consciente, mas uma cadeia de reflexos que corre mais depressa do que o pensamento dele.

Isto não é uma desculpa para mau comportamento?

Não, e também não fabrica nenhuma. Uma explicação diz porque acontece algo, não que esteja bem. A irritação perante uma pergunta normal continua a ser algo que podem esclarecer. A diferença é apenas que deixa de a ler como uma afirmação sobre o seu valor.

O que é a diferenciação?

O termo descreve a capacidade de estar próximo numa relação e continuar a ser uma pessoa própria. Duas pessoas inteiras que se ligam, em vez de duas metades que se fundem. É precisamente esse terceiro caminho que alguém com apego evitativo muitas vezes não conhece, porque só viveu o isolamento total ou o sacrifício total.

Ajuda oferecer-lhe menos proximidade?

Menos proximidade não ajuda, menos pressão sim. Não é a mesma coisa. Pode oferecer a mesma proximidade deixando a escolha do outro lado. Quem se faz pequena para evitar o gatilho só desloca o problema, e pelo caminho perde-se a si própria.

Porque se torna pouco fiável justamente quando corre bem?

Porque precisa de provar a si mesmo que ainda é livre. O seu ímpeto de liberdade é na verdade um reflexo de fuga. Quanto mais forte se torna o «nós», mais ele luta pelo seu «eu», e a prova mais fácil é um plano cancelado.

Isto pode mudar?

Sim, mas não só com a sua paciência. O que baixa a reação de forma mensurável é a previsibilidade: combinações claras, regresso fiável, nenhuma surpresa em matéria de compromisso. Isso reduz a ameaça sentida. O trabalho de fundo sobre o medo de ser absorvido tem de ser dele.

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Fontes e leituras recomendadas
  1. Bowlby, J. (1969): Attachment and Loss, Vol. 1: Attachment. Londres: Hogarth Press. Web
  2. Mikulincer, M. & Shaver, P. R. (2016): Attachment in Adulthood: Structure, Dynamics, and Change. 2.ª ed. Nova Iorque: Guilford Press. Web
  3. Porges, S. W. (2011): The Polyvagal Theory. Nova Iorque: Norton.
  4. Diamond, L. M., Hicks, A. M. & Otter-Henderson, K. (2006): Physiological Evidence for Repressive Coping among Avoidantly Attached Adults. Journal of Social and Personal Relationships, 23(2), 205–229.
  5. Schnarch, D. (1997): Passionate Marriage. Nova Iorque: Norton.
  6. van der Kolk, B. (2014): The Body Keeps the Score. Nova Iorque: Viking. Web