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Apego evitativo e intimidade: porque muda depois do sexo

Por Elias FreiAtualizado em 5 de agosto de 202610 min de leitura

Há um instante estavam mais próximos do que há muito tempo. Vinte minutos depois ele está ao telemóvel, fala do dia seguinte ou levanta-se. Para si é como se alguém tivesse carregado num interruptor. Este texto explica o que acontece nesses vinte minutos e porque é justamente a parte mais bonita que dispara o afastamento.

A ressaca de vulnerabilidade

Em resumo

O sexo é a forma mais extrema de intimidade, aí caem todas as máscaras. Logo a seguir, muitas pessoas de apego evitativo sentem aquilo a que Brené Brown chama ressaca de vulnerabilidade: vergonha pelo que foi entregue e o impulso de repor o limite de imediato. O afastamento é trabalho de fronteira, não um juízo sobre o que acabou de acontecer.

Toda a gente conhece essa sensação em pequenas doses. Abriu-se muito, e na manhã seguinte chega o pensamento: o que é que eu mostrei de mim afinal? Num sistema nervoso evitativo essa réplica não é um mal-estar suave mas um alarme que obriga a uma ação.

Isso explica o momento que tanto a confunde. O afastamento não chega porque algo correu mal. Chega porque correu bem. A mecânica em detalhe: afasta-se depois da proximidade.

Porque o sexo é mais fácil do que falar

Em resumo

A evitação é contra a proximidade emocional, não contra o corpo. O sexo tem um enquadramento: um princípio, um fim, regras claras. Uma conversa sobre sentimentos não tem. Por isso em muitos casais com uma parte evitativa a sexualidade funciona bastante melhor do que a comunicação, e por isso não é um termómetro fiável da proximidade.

É aqui que muita gente se engana. Quem vive uma boa ligação física deduz daí disponibilidade emocional. No apego evitativo essa dedução não vale. As duas coisas correm por canais separados, e uma diz pouco sobre a outra.

A investigação sobre estilo de apego e sexualidade mostra um quadro recorrente: as pessoas de apego evitativo relatam com mais frequência motivos que ficam fora da relação, como aliviar tensão ou procurar confirmação, e com menos frequência o desejo de exprimir ligação emocional. O sexo pode funcionar para elas sem significar proximidade.

O afastamento é a tentativa de reconstruir o limite de imediato. Não um juízo sobre o momento anterior. O Código do Apego Evitativo, FAQ 1

Porque diminui quanto mais próximo fica

Em resumo

Ao início o sexo era proximidade física sem amarras. Com o compromisso crescente muda de significado: de um encontro passa a um ato entre duas pessoas que esperam algo uma da outra. É isso que ativa o sistema de apego. Que a frequência baixe precisamente quando se aproximaram é típico.

Para si isso sabe a atração que se apaga, e a interpretação é compreensível. Quase sempre é falsa. O que baixa não é a atração mas a segurança com que ele se consegue deixar ir, desde que a relação se tornou real.

Um indício com que pode verificar isto: se a distância aumenta depois dos marcos, ou seja depois do primeiro «amo-te», depois da mudança para a mesma casa, depois de conhecer a família, então segue o compromisso e não a sua pessoa.

O que pode fazer nos minutos seguintes

Em resumo

Nos minutos a seguir ao afastamento decide-se se isto dura uma noite ou uma semana. O que resulta custa pouco: não perguntar o que se passa, não aludir ao momento anterior, não oferecer interpretações. O afastamento encurta quando não tem de ser respondido.

Prolonga a distância

«E agora o que é que se passa?» · «Ainda agora estava tudo bem.» · «Porque ficas assim de repente?» · Uma conversa sobre a vossa relação no mesmo quarto onde acabou de virar.

Encurta-a

Manter a calma, ocupar-se com outra coisa, ser simpática sem procurar apego. E dias depois, num momento neutro, uma frase sobre si em vez de sobre ele.

A frase para mais tarde podia soar assim: «Gosto especialmente dos minutos a seguir. Se nessa altura precisares de sossego, tudo bem, diz-me só isso.» Assim nomeia a sua necessidade sem lhe censurar um comportamento que ele mal consegue controlar. Mais formulações em 12 frases que funcionam com uma pessoa evitativa.

O que não deve entregar pelo caminho

Em resumo

Ter em conta o ritmo dele é diferente de abdicar da sexualidade, da ternura ou da necessidade de não ficar sozinha depois. Se começar a conter-se de propósito depois do sexo para não disparar o afastamento dele, a dinâmica já lhe comeu o próprio comportamento.

Há aqui uma linha clara. A necessidade dele de distância depois da proximidade é compreensível e pode ter lugar. O que não está bem:

  • Recusa permanente sem conversa. Se a sexualidade desaparece e cada tentativa de falar disso é despachada como pressão, isso é um limite e não uma particularidade.
  • Desvalorização como forma de criar distância. Os comentários sobre o seu corpo ou os seus desejos que aparecem depois dos momentos mais próximos são uma estratégia de desativação, não uma opinião.
  • Um clima em que se envergonha do seu desejo. Esse é o ponto em que se perde a si própria.

Por onde passam exatamente as suas linhas e o que acontece quando são ultrapassadas esclarece pôr limites sem se perder.

E se for você a levantar-se depois

Em resumo

Este texto está escrito do outro lado, mas muita gente se reconhece em quem se afasta. Se for o seu caso: o impulso não é um defeito de carácter e também não tem de o reprimir. O que muda quase tudo é uma única frase dita no momento, em vez de um movimento em direção à porta.

«Preciso de dez minutos, não é por tua causa» faz um trabalho que nenhuma explicação posterior consegue: separa a sua regulação do valor da outra pessoa. Sem essa frase, ela fica com a única leitura disponível, e essa leitura é quase sempre «fui demais».

E um segundo passo, mais pequeno do que parece: ficar dez minutos mais do que é confortável, sem conversa, sem gesto especial. É exatamente o mesmo mecanismo descrito em superar o apego evitativo: não forçar o sentimento mas alargar a margem antes da reação.

O que pode mudar

Em resumo

O padrão suaviza quando a proximidade fica repetidamente sem consequências, ou seja quando nada é exigido e mesmo assim está lá alguém. Isso leva meses, não semanas, e só funciona se entretanto não estiver à espera de um resultado. O que mais se transforma é a duração do afastamento, não o facto de ele aparecer.

Os sinais realistas de progresso são pouco espetaculares: fica dez minutos mais. Diz «preciso de um bocadinho de ar» em vez de se levantar. Na manhã seguinte volta ao assunto por iniciativa própria. Passos pequenos, ao longo de meses, não de dias.

Importante: este texto é divulgação, não um diagnóstico nem um substituto de terapia. Se a sexualidade na vossa relação estiver ligada a pressão, insistência ou medo, já não se trata de estilos de apego. Linha de apoio a vítimas de violência doméstica: 800 202 148. SNS 24: 808 24 24 24. Emergência: 112.

Perguntas frequentes

Porque o meu parceiro se distancia depois do sexo?

O sexo é a forma mais extrema de intimidade, aí caem todas as máscaras. Logo a seguir, uma pessoa de apego evitativo sente muitas vezes a ressaca de vulnerabilidade: vergonha ou medo de ter mostrado demasiado de si. O afastamento é a tentativa de reconstruir o limite de imediato, não um juízo sobre o momento anterior.

É possível ser evitativo e gostar de sexo na mesma?

Sim, e é até frequente. A evitação é contra a proximidade emocional, não contra o corpo. O sexo pode parecer mais seguro do que uma conversa sobre sentimentos, porque tem limites claros, um princípio e um fim. Isso explica que funcione na cama e não à mesa do pequeno-almoço.

Porque quer menos sexo quanto mais tempo estamos juntos?

Porque com o compromisso crescente o sexo muda de significado. Ao início era proximidade física sem amarras. Numa relação firme passa a ser um ato entre duas pessoas que querem algo uma da outra, e é isso que ativa o sistema de apego. Que a frequência baixe justamente quando se aproximaram é típico e não sinal de falta de atração.

Devo dizer-lhe que depois desaparece?

Sim, mas não logo a seguir. Uma conversa imediatamente depois do afastamento apanha-o em estado de alarme e é lida como censura. Fale disso dias depois num momento calmo, curto, sem análise e a partir de si: «É mais fácil para mim se depois ficarmos ainda uns minutos juntos».

É por mim ou pelo meu corpo?

Quase de certeza que não. O afastamento segue-se à proximidade, não à sua aparência nem ao seu desempenho. A prova está no momento: chega depois dos encontros mais intensos, não dos medianos. Se a sua atratividade fosse o gatilho, o padrão seria exatamente o contrário.

E se a sexualidade acabar por completo?

Então foi tocado um limite, não uma mania. Tem direito a sexualidade dentro de uma relação, e uma recusa permanente que ainda por cima não pode ser falada é um dos pontos em que compreender já não chega. Isso é tema para uma conversa clara e, se não levar a lado nenhum, para uma decisão.

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Fontes e leituras recomendadas
  1. Brown, B. (2012): Daring Greatly. Nova Iorque: Gotham Books.
  2. Mikulincer, M. & Shaver, P. R. (2016): Attachment in Adulthood: Structure, Dynamics, and Change. 2.ª ed. Nova Iorque: Guilford Press. Web
  3. Birnbaum, G. E. (2007): Attachment Orientations, Sexual Functioning, and Relationship Satisfaction. Journal of Social and Personal Relationships, 24(1), 21–35.
  4. Davis, D., Shaver, P. R. & Vernon, M. L. (2004): Attachment Style and Subjective Motivations for Sex. Personality and Social Psychology Bulletin, 30(8), 1076–1090.
  5. Diamond, L. M., Hicks, A. M. & Otter-Henderson, K. (2006): Physiological Evidence for Repressive Coping among Avoidantly Attached Adults. Journal of Social and Personal Relationships, 23(2), 205–229.
  6. Johnson, S. (2008): Hold Me Tight: Seven Conversations for a Lifetime of Love. Nova Iorque: Little, Brown. Web