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A fase de conhecer alguém evitativo: os sinais precoces

Por Elias FreiAtualizado em 5 de agosto de 20269 min de leitura

As primeiras semanas foram intensas, abertas, quase irreais de tão boas. Ele contou muito de si, escrevia todos os dias, fazia planos. E de repente, sem motivo aparente, arrefeceu. Este texto explica porque isso não foi acaso, quando chega exatamente a viragem, e que sinais já lá estavam antes.

Porque o início corre tão bem

Em resumo

Na fase de conhecer, a distância ainda é suficientemente grande para que uma pessoa evitativa se sinta segura. Enquanto não existir um compromisso real, o sistema de alarme não dispara: consegue viver a paixão a fundo e abrir-se muito. A intensidade do início não contradiz o padrão, é a sua condição prévia.

Este é o ponto que mais confunde em retrospetiva. Conheceu uma pessoa aberta e presente. Essa pessoa era real. Só que era possível em condições que não continham qualquer amarra.

Algumas pessoas evitativas são nesta fase até notavelmente intensas: muitas mensagens, frases grandes, planos rápidos. Não é uma contradição. Enquanto nada for vinculativo, a proximidade não custa nada, e a vontade de proximidade existe mesmo.

Quando muda exatamente

Em resumo

A viragem não depende do calendário mas do grau de compromisso. Chega assim que a coisa se torna «a sério»: quando a exclusividade entra na conversa, quando surge uma rotina partilhada ou quando se atinge um marco. É precisamente aí que a proximidade passa a ameaçar a autonomia e começa a desativação.

Por isso vive a mudança muitas vezes sem um gatilho que consiga nomear. Para si aquele fim de semana foi bonito. Para o sistema dele foi o momento em que um conhecer-se se transformou numa relação.

Gatilhos típicos da viragem na fase de conhecer
O que acontecePara siPara o sistema dele
Falam de exclusividadeclareza, alívioamarra, aperto
Primeira noite juntos dentro da rotinaproximidade, familiaridadeperda do espaço de recuo
Apresenta-o aos seus amigosorgulho, pertençaexposição, já não há volta atrás
O primeiro «gosto muito de ti»coragem, aberturaressaca de vulnerabilidade
Planear com mais de três semanas de antecedênciafuturocompromisso

O que se segue é o recuo: respostas mais curtas, planos cancelados, uma secura repentina. A mecânica em detalhe: afasta-se depois da proximidade.

Os sinais das primeiras semanas

Em resumo

Já antes da viragem há indícios: planeamento vago do futuro, abertura sobre factos e não sobre sentimentos, uma ex idealizada, independência sublinhada sem que ninguém lhe tenha tocado e um ritmo de contacto muito oscilante. Isoladamente nenhum significa grande coisa; combinados são um padrão fiável.

  • O futuro fica curto. No fim de semana que vem sim, daqui a seis semanas fica impreciso. Não é recusa, é apenas nunca concreto.
  • Abertura sobre factos, não sobre sentimentos. Fica a saber muito sobre a vida dele e pouco sobre como ele se sente com ela.
  • A história anterior idealizada. Uma ex com quem «era tudo fácil», ou a narrativa daquela pessoa perfeita. Um ideal que deixa qualquer presente na sombra.
  • A independência como princípio. «Preciso de muita liberdade» como aviso precoce, embora ninguém a tenha limitado.
  • Ritmo oscilante. Três dias muito presente, dois quase desaparecido, sem qualquer motivo externo reconhecível.
  • Humor nos momentos errados. Quando uma conversa se torna pessoal, chega a piada.

Em detalhe e com frases de exemplo: os 15 sinais.

Nem toda a reserva é evitação

Em resumo

Um início lento tem muitas causas, e quatro delas parecem-se bastante vistas de fora. Quem vem de uma separação recente precisa de tempo sem que haja qualquer padrão por trás. Quem é introvertido precisa de calma depois dos estímulos, não depois da proximidade. Quem tem outro ritmo avança devagar mas de forma constante. E quem simplesmente está menos interessado também parece distante. A diferença não está na velocidade mas na direção.

  • Separação recente. A abertura cresce com as semanas, a distância encolhe. Consegue nomear porque precisa de tempo, e esse motivo continua o mesmo daqui a um mês.
  • Introversão. Precisa de silêncio depois de uma festa, não depois de uma conversa íntima. E volta aberto, não distante.
  • Outro ritmo. Devagar mas fiável: os planos mantêm-se, as mensagens chegam, só que são menos. A previsibilidade é alta, a frequência baixa.
  • Pouco interesse. Falta a fase intensa do início. Nunca houve um momento em que se abrisse por completo, portanto também não há uma viragem para explicar.

O apego evitativo reconhece-se por outra coisa: existiu um início muito aberto e a abertura diminui depois. Essa sequência concreta não aparece em nenhuma das outras quatro explicações. Se estiver em dúvida, não olhe para o mês atual mas para a curva dos três últimos: aproximaram-se ou afastaram-se?

O teste que dá clareza cedo

Em resumo

O teste mais revelador não é como alguém se comporta quando tudo corre bem, mas como reage quando você exprime uma necessidade pequena. Quem reage com interesse, mesmo sem a conseguir cumprir logo, está disponível. Quem reage com afastamento ou com a censura de que está a fazer pressão disse-lhe muito, muito cedo.

Isto pode manter-se pequeno. Não é preciso um debate sobre a relação na quarta semana, mas um pedido nada espetacular:

O teste pequeno

«Dou por mim a sentir que os silêncios longos me custam. Ajudava-me que me avisasses quando precisares de um tempo para ti.» Um pedido que quase não custa nada.

Onde repara

Não na promessa mas nas três semanas seguintes. O aviso curto chega mesmo? Uma vez é delicadeza. Três vezes é uma capacidade.

O que ainda pode decidir nesta fase

Em resumo

A fase de conhecer é o momento com menor custo para uma decisão. Ainda não há casa partilhada, nem círculos de amigos entrelaçados, nem anos acumulados. O que agora parece uma pequena discordância será daqui a dois anos o tema principal: os padrões tornam-se mais estáveis com o tempo, não mais permeáveis.

Isto não é um apelo a fugir. As pessoas evitativas não são incapazes de ter relações, e muitas dessas relações aguentam. É um apelo a olhar agora em vez de daqui a dois anos, enquanto a pergunta ainda for «isto encaixa comigo?» e não «como saio daqui?».

Duas perguntas que ajudam: se tudo ficasse exatamente como está agora, conseguiria ser feliz assim durante um ano? E: conto às minhas amigas coisas desta relação, ou explico-lhes a relação?

E uma terceira, a mais incómoda: aconselharia uma amiga a deixar isto seguir assim? Quase toda a gente responde a essa pergunta com mais clareza para outra pessoa do que para si própria, porque no caso alheio o tempo já investido não conta. É precisamente esse o ponto. Os meses que já passaram não são um argumento a favor dos meses que hão de vir. Chamam-se custo irrecuperável, e nas relações funcionam como em qualquer outro lado: fazem-nos ficar porque já ficámos.

Importante: este texto é divulgação, não um diagnóstico. A reserva precoce pode ter muitas causas: introversão, uma separação recente, stress, um ritmo diferente. O que define o padrão não é a reserva em si, mas o facto de aumentar à medida que a proximidade cresce. Se a situação lhe está a pesar: SNS 24 pelo 808 24 24 24 e Voz de Apoio 225 506 070. Emergência: 112.

Perguntas frequentes

Porque ao início era tudo perfeito e agora ele está frio?

Na fase de conhecer, a distância ainda é suficientemente grande para que uma pessoa evitativa se sinta segura. Sem um compromisso real o sistema de alarme dela não dispara e consegue viver a paixão. Só quando a coisa se torna «a sério» (exclusividade, rotina partilhada, compromisso) é que a proximidade passa a ameaçar a autonomia, e começa a desativação.

Ao fim de quantas semanas muda normalmente?

Não há um número fixo, mas há um padrão: a viragem não depende do calendário mas do grau de compromisso. Chega quando a exclusividade entra na conversa, quando surge a primeira rotina comum ou quando se atinge um marco. Em inícios intensos isso costuma acontecer entre as seis e as doze semanas; em ritmos mais lentos, mais tarde.

A fase intensa do início foi mentira?

Não. Os sentimentos dessa fase são reais, só foram possíveis em condições que não incluíam compromisso. Essa é a parte mais difícil desta experiência: não percebeu nada de errado. Conheceu uma pessoa em circunstâncias em que ela conseguia abrir-se.

Devo ir-me embora ao primeiro sinal de alerta?

Não automaticamente. Sinais isolados significam pouco; decisivo é o que acontece quando exprime uma necessidade. Se alguém reage com interesse, mesmo que não a consiga cumprir logo, há muita margem. Se reage com afastamento ou com a censura de que está a fazer pressão, deu-lhe muito cedo uma informação muito clara.

Pode resolver-se sozinho numa relação nova?

Raramente. Sem um trabalho interior verdadeiro, uma pessoa leva o seu código para a relação seguinte, e aí o padrão recomeça exatamente depois da fase de paixão. Quem diz que com a ex era tudo diferente costuma estar a descrever uma fase, não uma capacidade.

A contenção no início não é simplesmente normal?

É, e é precisamente por isso que o momento é tão revelador. A cautela normal diminui à medida que duas pessoas se sentem mais seguras. A reserva evitativa aumenta quanto mais próximas ficam. Se a abertura decresce ao longo das semanas em vez de crescer, está aí a diferença.

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Fontes e leituras recomendadas
  1. Hazan, C. & Shaver, P. (1987): Romantic Love Conceptualized as an Attachment Process. Journal of Personality and Social Psychology, 52(3), 511–524. DOI
  2. Bartholomew, K. & Horowitz, L. M. (1991): Attachment Styles among Young Adults. Journal of Personality and Social Psychology, 61(2), 226–244. DOI
  3. Mikulincer, M. & Shaver, P. R. (2016): Attachment in Adulthood: Structure, Dynamics, and Change. 2.ª ed. Nova Iorque: Guilford Press. Web
  4. Levine, A. & Heller, R. (2010): Attached: The New Science of Adult Attachment. Nova Iorque: Tarcher/Penguin. Web
  5. Tatkin, S. (2011): Wired for Love. Oakland: New Harbinger.